3 de julho de 2016

A Última Execução do Carrasco de Nantes


Sou filho do ferreiro Alphonse e de Nelly, uma ex-cortesã da taverna dos prazeres. Mamãe deveria morrer em alguns dias. Está muito mal e vem sofrendo demasiadamente com a lepra. Uma peste que ataca a tez e impinge círculos purulentos por todo corpo. Mas ela ainda nutre alguma esperança. 

Papai se sentou na cadeira de rodas, um hediondo patíbulo, e nunca mais se levantou. Uma viga de ferro caiu sobre suas costas, tornando-o aleijado para todo o sempre. Agora, espera – ansiosamente - a morte escolhê-lo como o próximo. Também é leproso! Ele quer morrer, ela quer viver.

Mas essa não é minha história, pois dela, a morte faz parte. Sempre andou ao meu lado, ombreada comigo. As duas, a morte e minha história, estão severamente agrilhoadas.Sou carrasco há quatro décadas e meia. Recebi a alcunha de Vorace, o Carrasco. Assim, o falecimento de outrem, mormente larápios, homicidas, adúlteros, prostitutas, estupradores e os que são afeitos ao incesto há quarenta anos e meio saiu de minhas vetustas mãos. E aconteceu de diversos modos: guilhotina, golpes de machado na nuca, afogamento, esquartejamento etc.

Assumi o ofício, que ninguém logrou ficar por mais de uma execução, numa época cuja violência alastrava-se rapidamente por Nantes. Naquele tempo, os oficiais de justiça sujeitavam qualquer do povo à função de verdugo. Escolhiam um munícipe a esmo (diziam que era sorteio, mas não estou de todo convencido) e nomeavam-lhe à função para efetuar a mórbida labuta.

Certa feita, um homem fora arregimentado no meio da rua e impelido a um tablado de extinção humana, onde uma mulher seria executada. Sua cabeça seria decepada aos olhos dos habitantes de Nantes. Não me recordo com clareza, mas no cair da noite souberam que a condenada tinha parentesco com o homem que a matara. Os parentes não se reconheceram porque os dois vestiam capuzes.

Foi no dia posterior, sob juramento de morte, que fui declarado verdugo oficial do governo local. A vaga ficara em aberto por quase um ano e os poucos que se aventuravam, desistiam após a primeira execução, quando não antes.

Jurei servir à França, com meu tétrico ofício, onde precisasse e contra quem fosse necessário. Executei muitas pessoas em praça pública, mas há alguns anos as execuções se restringiram às residências – ou, em pior caso, onde o sentenciado fosse encontrado, mesmo que fosse em público ou dentro de algum templo religioso - dos que viviam à margem da Lei.

Há alguns minutos, guardas da intendência de polícia chegaram à minha porta. Trouxeram-me uma epístola com o novo decreto do Prefeito de Nantes. Do documento, li apenas o parágrafo que condena à morte, com investidas do machado na nuca, os acometidos pela lepra. Há, apensado ao decreto, uma lista com cinquenta e sete nomes arrolados à execução. O ferreiro Alphonse e a ex-cortesã Nelly estão listados para a extinção.

Não sinto pelo meu pai, pois o homem tenciona morrer o mais rápido possível. E a execução ser-lhe-ia como dádiva, uma libertação da paraplegia. Mas mamãe... mamãe ainda luta para viver. Entretanto, serei profissional a ponto de executá-los, mesmo porque não há cura para a lepra e eu, quando abracei a profissão, jurei que abateria qualquer um que me fosse designado fazer. E se não o fizesse, seria guilhotinado em praça pública.

O mais comovente é a extensão do decreto que me obriga a atear fogo aos cinquenta e sete cadáveres. Isto é, nenhum irmão ou neto ou filho poderá enterrar seu ente querido dignamente, pois todos serão sepultados, já crestados, na vala comum. Depois de toda esta mixórdia infernal, solicitarei minha aposentadoria.


Por Pedro Pantoja